Clássicos em Quadrinhos - Entrevista com Jo Fevereiro

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Jo Fevereiro é ilustrador e publicitário. Nasceu em 1950 na cidade de São Paulo e, ainda na infância, adquiriu o gosto pela leitura com o livro Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Aos 14 anos ingressou na Escola Panamericana de Arte e, aos 15, trabalhou com Nico Rosso, conhecido artista italiano radicado no Brasil e desenhista de histórias em quadrinhos da época. Jo gostava de HQs e aprendeu com Rosso a se interessar pela leitura e elaboração de histórias mais adultas e, na época, ainda chegou a escrever alguns roteiros.

Porém, acabou optando por trabalhar principalmente com publicidade por questões financeiras mas, sempre que pôde retomou as HQs. Em 1978, fez um curso de roteirização para quadrinhos na Associação dos Artistas Gráficos e participou de algumas publicações independentes. No ano seguinte, paralelamente a seu estúdio de publicidade, passou a colaborar com algumas editoras.

Em 1982, parou novamente com as HQs por conta de uma crise econômica e trabalhou na Imprensa Oficial do Estado para conseguir manter seu estúdio. Só voltou com os quadrinhos em 1990, quando morou em Portugal e foi convidado para criar um personagem para o jornal da Casa do Brasil de Lisboa. Retornou ao Brasil em 1995 e participou da revista do curso de Design da Escola Superior de Belas Artes. Em 2005, retomou as HQs com a coleção Literatura Brasileira em Quadrinhos, da Editora Escala.

Numa conversa por e-mail, Jo falou um pouco da concepção, desenvolvimento e produção dessa coleção que adaptou inicialmente contos de escritores consagrados da literatura nacional. E fica a seguinte questão: quem ganha com esse tipo de iniciativa? Os quadrinhos, a literatura ou os dois?
capas de alguns livros da coleção
EmFechamento: Como surgiu a oportunidade de trabalhar com quadrinhos na Escala?
Jo Fevereiro: A pré-história dessa coleção ocorreu no primeiro contato que tive com o editor da Escala Educacional. Soube que a editora queria ampliar o quadro de colaboradores na área de paradidáticos e falei com meu amigo, o desenhista Francisco Vilachã, para que passasse lá. Ele levou para a visita o portfólio e algumas páginas em quadrinhos que esboçara nas horas vagas a partir de um texto do Machado de Assis. Ficou surpreso ao ver que o editor se interessou por aquelas páginas como quadrinhos e não como meras ilustrações. A editora estava atrás de algo diferente na linha de produtos paradidáticos e o meu amigo, por acaso, apareceu com a solução. Ligou para mim todo entusiasmado, contou a novidade e me convidou para participar daquela empreitada. Inicialmente, eu declinei, disse que fazia muitos anos que não trabalhava numa história longa. Estava inseguro em relação a esse desafio, mas ele insistiu tanto que aceitei assumir uma das duas revistas que iniciariam a série.

Como foi feita a escolha dos títulos que seriam adaptados?
Vilachã e o editor fizeram outra reunião, dessa vez com o diretor editorial, e formataram a coleção em oito adaptações iniciais. Definiram dimensões, número de páginas e alguns títulos. Decidiram também que, nessa primeira fase, seriam adaptados contos de apenas dois autores: Machado de Assis e Lima Barreto. O Vilachã voltou para casa com a missão de pesquisar os textos que faltavam e que fossem mais adequados ao projeto. Escolhi um dos títulos disponíveis, O homem que sabia javanês, do Lima, e o Vilachã me sugeriu A Cartomante, do Machado, que também aceitei fazer.
Trecho da adaptação Gaetaninho
Observei que nos livros de contos, o texto original foi mantido. Como foi feita essa opção por manter o texto? Quando algo é suprimido, qual o critério? Como essa opção (de manter o original) foi recebida?
Quando comecei a decupar o texto para a roteirização de O homem que sabia javanês, minha preocupação era encaixar ao máximo o texto original dentro das quarenta páginas determinadas. Acabei e vi que o texto se acomodava confortavelmente no espaço da página, o que se tornava um grande diferencial em relação as adaptações que eu conhecia, já que o texto estava praticamente intacto. Praticamente, porque foram suprimidas algumas palavras que seriam desnecessárias ao lado da imagem como: “disse ele”, “perguntou”, “explicou”, “pensou”, etc., que na linguagem dos quadrinhos ficam subentendidas nos rabichos dos balões. Conversamos, eu e o Vilachã, a respeito dessa nova proposta. Concluímos que era um caminho interessante e que, para mantermos essa integralidade do texto original, precisaríamos selecionar contos com cerca doze páginas de texto.

Tamanho não parece um critério nobre, admito, para a escolha de títulos. Mas, nesse caso era a única maneira de adequarmos a intenção à viabilização. E, certamente ninguém teria paciência para ler um romance com o texto integral, em quadrinhos. O conto tem por característica uma linguagem mais dinâmica, mais compatível com a dos quadrinhos. Só tivemos que escolher os que apresentassem melhores possibilidades visuais para estimular a nossa imaginação, o que refletiria positivamente no resultado final. A Escala Educacional resolveu bancar a proposta.Sabíamos de antemão que alguns puristas do quadrinho estranhariam esse tipo de roteiro. Afinal as adaptações de literatura, tanto para quadrinhos quanto para o cinema ou teatro, alteram o texto original para a nova linguagem em que será apresentado. Mesmo assim, continuamos a encarar essa fidelidade ao autor como uma virtude. Nossa pretensão com esse projeto era, naquele momento, levar o texto integral, numa roupagem mais atraente, para aquele aluno que tem aversão ao texto corrido. Se resultasse, valeriam a pena: o risco, o esforço, as críticas mais preconceituosas.Pelo número de escolas por todo o Brasil que tem adotado essas adaptações como material de apoio, está valendo, e muito.

Com relação as ilustrações, como foi feito o trabalho de pesquisa para compor os cenários,figurinos, penteados e cores?
Felizmente ainda guardo duas coleções antigas (Nosso Século e História do século XX), fartamente ilustradas e que documentam muito bem a época relativa ao conto. A internet também se tornou uma ferramenta para esse trabalho, pela agilidade e amplitude de alcance. Foi nela que consegui a maior parte das imagens que precisava e a que mais me preocupava desde a leitura: a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, um dos cenários mais importantes da história. Eu teria que desenhar cenas externas e internas nesse ambiente e era preciso imagens do próprio local para dar o máximo de veracidade. Já estava desanimado com a pesquisa, até que resolvi entrar no próprio site da biblioteca. Foi o maior alívio... ele dispunha de uma viagem virtual e retirei tudo o que era necessário para as cenas.

Quanto aos personagens, procurei respeitar sempre as características definidas pelo autor. No caso do personagem principal, um baiano que poderia ser filho de um javanês, mostrando sua metamorfose através do tempo e da escalada social. Os outros, cada um com suas características próprias, sejam sociais, profissionais, etárias,de personalidade, etc. Todos eles situados em sua época através da moda, dos adereços, corte de cabelo, barba,bigode, etc., fartamente documentados nas coleções já citadas.Na questão da cor, a medida certa é justamente identificar as situações do texto e utilizar as tonalidades adequadas a cada uma delas. Eu dispuz desses recursos cromáticos em praticamente todas as adaptações que fiz. Para induzir o leitor ao ambiente “de época” estabeleci uma paleta em tons pastel. Infelizmente, por problemas industriais que fogem ao nosso controle, nem todas as revistas saem com a impressão bem ajustada e as cores podem perder a tonalidade do arquivo original.

comparações entre as ilustrações e fotografias da época

Você acha que o fato do mesmo profissional fazer o roteiro e a arte garante mais coesão à adaptação?
Neste caso específico, com a opção pela literalidade, o termo “decupagem” é mais adequado do que “roteiro”. Escolhi um trecho mais ou menos na metade, que desse uma boa “passagem” de página, depois na metade das metades e continuei essa divisão sucessivamente, até chegar nas quarenta páginas pré-estabelecidas. Em seguida dividi o texto que coube a cada página em cenas, futuros quadrinhos, e as cenas em legendas e balões, conforme a narrativa.Particularmente me senti bastante à vontade nessas adaptações. Além de ter feito muitos roteiros para eu mesmo desenhar, estava trabalhando com ótimos textos originais e totalmente adequados à linguagem dos quadrinhos.

Quanto tempo em média dura o trabalho de edição de uma obra desse tipo? Quais são as etapas?
Eu levei de dois a três meses para concluir cada adaptação, da leitura do texto à entrega dos arquivos originais para impressão. As etapas de trabalho são: roteiro, desenvolvimento de caracteres dos personagens, pesquisa iconográfica,esboço quadrinizado, definição do desenho a lápis, arte-final com nanquim, escaneamento e tratamento digital dos desenhos finalizados, edição digital dos balões e legendas com letreiramento e, finalmente, colorização digital.

2 comentários:

  1. Parabéns, Marília, pelo Blog e pela competente matéria feita comigo. Sinto-me honrado em ocupar este espaço que, espero, seja uma fonte duradoura de boas informações.

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